Enólogo Bernardo Cabral

publicado em: Culto Do Vinho, Vinhos | 0

Os conselhos de harmonizações como parte integrante do serviço de vinhos nos restaurantes, quando bem feito, é uma mais valia para o restaurante

Bernardo Cabral Companhia das Lezirias 450

Bernardo Cabral, enólogo, natural de Moçambique, foi logo aos 12 anos que decidiu ser enólogo. Desde muito novo percebeu que alguma coisa especial o vinho teria que ter para dar tanto prazer a quem o bebia e especialmente a quem o fazia. Vivia fascinado com os seus tios enólogos e tudo o que aquele mundo, místico aos seus olhos, representava. Sem dúvida queria fazer parte dele.

Qual o seu percurso profissional?
Começou ainda na faculdade através do meu trabalho final de curso. Um estudo muito interessante que me permitiu contactar reconhecidos profissionais do sector e que acabou por me abrir algumas portas. Fui desafiado pelo José Gaspar para fazer parte da sua jovem equipa na então renovada empresa Caves Dom Teodósio. Aprendi muito durante o pouco tempo que lá estive. De seguida pela mão do Nuno Cancela d’Abreu rumei para a Companhia das Quintas, na altura a dar os seus primeiros passos. Foram 4 anos em que trabalhei com pessoas que foram e ainda são muito importantes para mim pessoal e profissionalmente (e faço aqui uma especial homenagem ao meu amigo João Correia). Em 2004 fui para a Casa Santa Vitória colocar as “primeiras pedras” com o Nuno Cancela d’Abreu como consultor. Fui enólogo principal e director da empresa durante 8 anos e hoje continuo como consultor.

Em 2012 tive o desafio da Companhia das Lezírias que me fez mudar de “casa mãe” e até hoje mantenho-me como enólogo (e mais umas coisas).

Em simultâneo mantenho consultoria na Bombeira do Guadiana (Mértola), Pegos Claros (Palmela), Vicentino (Zambujeira-do-mar).

Como enólogo quais foram os seus maiores desafios?
Além dos grandes desafios que são as vindimas (algumas mais do que outras), dos maiores com os quais já fui confrontado foram os de encontrar consensos com os donos/líderes dos projectos com quem trabalho. Definir estratégias de marca e patamares de qualidade associados, com tudo o que isso implica aos níveis da viticultura, enologia e comercial, é um enorme desafio.

O que acha mais relevante na evolução do Mercado dos vinhos nos últimos anos?
A curiosidade do consumidor de vinho. O nível de conhecimento e curiosidade está a abalar o conceito de marca estática para ser substituído pela procura da novidade. Os consumidores estão a deixar de ser fieis a uma marca para procurarem vinhos novos e conceitos novos o que leva os produtores ao constante desafio de se reinventarem.

O que acha do serviço de vinho nos restaurantes?
Acredito que a pergunta seja relativa a Portugal, e acho que está francamente melhor. No entanto, quando saímos dos restaurantes mais sofisticados, confesso que ainda apanho algumas desilusões. O caminho está a ser trilhado mas ainda vai no início.

O que pensa do serviço de vinho a copo?
Sou defensor há muitos anos. Hoje já há soluções técnicas que permitem fazê-lo com toda a qualidade e o consumidor agradece. EU agradeço

O que acha dos conselhos de harmonizações como parte integrante do serviço de vinhos nos restaurantes?
Quando bem feito é uma mais valia para o restaurante. Ainda esta semana foi-me sugerido um prato, que nunca escolheria, para acompanhar o vinho que já estava a beber. Uma harmonização a roçar o perfeito.

Qual a experiência em restaurante que melhor o impressionou?
Belcanto do José Avillez. Que bom existir um restaurante assim em Lisboa…

Qual foi o vinho que provou que mais o sensibilizou?
Já tive várias experiências extraordinárias. Talvez pelo momento, o local e a raridade, guardo na memória Shafer Cabernet Hillside Select 2002.

Qual a sua opinião sobre a evolução do mercado no que concerne à produção, distribuição e consumo?
Assusto-me com a guerra das promoções nas grandes superfícies. A produção a adaptar-se aos vinhos de baixo custo e o consumidor a agradecer. O sector está a sofrer muito por via de não conseguirmos agregar o devido valor a cada garrafa de vinho que vendemos.

Pelo lado positivo, há um número crescente de consumidores disponíveis para pagar mais para provar vinhos de conceito, com história e diferentes. Vejo um trabalho cada vez mais profissional de bastantes distribuidores que ajudam a criar tendências de consumo.

O que acha da evolução da penetração dos vinhos Portugueses no Mercado mundial?
Ainda muito longe do que queremos e precisamos atingir. Tem sido feito um bom esforço nos últimos anos, especialmente por parte dos produtores, mas ainda nos falta o reconhecimento generalizado dos consumidores de vinho estrangeiros. Quero acreditar que esta “onda” de turismo que vimos assistindo em Portugal possa abrir o apetite para os vinhos portugueses e que quem nos visite se torne mais um embaixador dos nossos vinhos pelo Mundo.

Qual a história que mais o marcou desde que trabalha nesta àrea?
Dificil escolha

Há uma historia que me é especialmente querida e que se passou numa vindima em Santa Vitoria.

Estava eu aos “comandos” de um robot pisador em cima de uma bateria de cubas/lagar e a ensinar um estagiário australiano a funcionar com o robot, quando o robot se parte e cai dentro daqueles 10.000 Kg de uma Touriga Nacional da qual tinha elevadas expectativas. Era fundamental iça-lo rapidamente uma vez que se afundava naquelas uvas maravilhosas. Estavam 6 homens e 2 mulheres à volta mas foi uma estagiaria, a Joana Lopes, que imediatamente se propus a lá ir dentro. Conseguimos salvar o robot, e dali fizemos um dos melhores vinhos alguma vez produzido na empresa.

Marcou-me especialmente a atitude daquela estudante que naquela situação se apercebeu da importância da situação e se prontificou a fazer parte da solução.

por Mário Rodrigues

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