Marta Caras Lindas

A fada das botas ou “The Cowboy Boot Lady” , uma história  fantástica contada pela Marta do restaurante “Coisas de comer” em Lisboa.

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por Marta Caras Lindas

Tenho por hábito trabalhar seja onde estiver. Desta vez foi numa sapataria quando tentei ajudar uma senhora australiana, na casa dos 70, que não se decidia sobre dois pares de botas de cowboy. Feitas as apresentações e comprado o par mais estranho, acabei por lhe dar um cartão com a garantia de que teria ganho uma cliente a médio prazo.

Não passaram umas horas quando fui informada que alguém que se intitulava “The Cowboy Boot Lady” me chamava ao telefone. A conversa foi surreal, mas afinal tinha ganho uma cliente para essa noite. Chegada sozinha de táxi, fez questão que a minha companhia servisse para rever a sua vida enquanto jantava. Atrapalhada em entender o seu “Broad English” chamei um vizinho que até à data julgava que o meu negócio era decoração e, realmente, de coração se tratava.

Mas não passaram 10 minutos para perceber que esta viajante insólita, com amores espalhados pelo mundo, que foi Eva de Adão noutra encarnação e gozava de capacidades de previsão extra terrenas, não era uma pessoa qualquer. A conversa descambou, pondo à prova o equilíbrio celestial: ela, ainda com traços de mulher bonita teria sido uma amante de Saddam Hussein; eu era a estrela que iluminava o comum dos mortais; o meu Amigo, não passava do pecado que nos atirava para o reino das trevas. Entre risos e ameaças, estava lançada a confusão que só acabou depois de lhe oferecer um prato e quatro copos de tinto, seguindo-se reforçadas desculpas para a sala, que assistia incrédula a tanto disparate.

Sem negócio mas com alguma habilidade lá conseguimos enfia-la num táxi, cuja porta teimava em trilhar uma espora pouco interessada na viagem, seguindo-se a necessidade de convencer o motorista a voltar ao seu lugar de trabalho, então abandonado pelo medo das pragas bafejadas sob um olhar alucinante de tanta freguesa.

Ela seguiu o seu destino, indecisa entre uma boleia para Le Chambon-sur-Lignon ou à vela para Nova York, e eu segui o meu instinto, encontrando neste turbilhão de acontecimentos o companheiro que tempera a minha vida.

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